I wish I were a Warhol silk screen hanging on the wall. Or little Joe or maybe Lou. I'd love to be them all. All New York's broken hearts and secrets would be mine. I'd put you on a movie reel, and that would be just fine. Ian Curtis
6.6.10

 

As férias eram aquele período que esperávamos o ano inteiro. Era a altura de sermos reis. A rua era nossa. Adorava aqueles dias que passava na minha avó. Os lanches eram feitos tudo aquilo que eu queria. Tudo aquilo que a minha mãe não queria que eu comesse. Mas essa era uma das funções dos meus avós. Chouriço assado com leite e café para o lanche. Coca-Cola e sandes a rebentar de marmelada dos mais variados gostos.

Os dias eram passados na rua. Éramos putos, mas éramos felizes. Não havia brancos, pretos, amarelos, às risquinhas ou sequer às bolinhas. Não éramos de direita, de esquerda, não sabíamos quem era Salazar ou Ché Guevara. Interessava quem marcava mais golos, corria mais rápido, pedalava com mais força ou conseguia subir à árvore mais alta.

Éramos putos, e éramos sonhadores. A pergunta “que queres ser quando fores grande?” ainda fazia sentido. Todos queríamos o que o outro quisesse ser, éramos amigos para sempre.

Todos esperávamos pelo jogo contra os da rua de cima. Era um momento importante. Enchíamos o peito e lá íamos nós. A bola era a que conseguíamos desenrascar naquele dia. Se fosse uma “oficial” tanto melhor. Todos éramos grandes génios. Todos iríamos ser o novo craque nacional e jogar no nosso clube de eleição. Se ganhássemos humilhávamos os da rua de cima. Se perdêssemos éramos humilhados. Aceitávamos isso como se fosse uma das regras mais antigas de sempre da vida em comum. Não importava se o jogo fosse num campo, no relvado do jardim ou mesmo na calçada.

As nossas aventuras e as nossas histórias eram sempre as melhores. Quando todos os anos a neta da senhora da casa ao fim da rua vinha para passar as suas férias, lá enchíamos nós de novo o peito. Não sabíamos o que era gostar de uma rapariga. Sabíamos que tínhamos de ser nós a impressiona-la. Nem que fosse irmos roubar o vinho do pastor, enquanto este dormia rodeado dos seus cães. Sermos apanhados e ficarmos de castigo compensava. Nem que fosse ir à fruta do “velho que tem a caçadeira” porque ele nunca acertava em ninguém. Ninguém podia ter medo. Ninguém podia ser covarde. Quem tivesse era prontamente apelidado de “maricas”, “menina” ou “medricas”. Ninguém queria ficar para trás. Éramos putos, mas éramos heróis.

As férias só aconteciam ano após ano. E ano após ano era cada vez mais como desconhecidos que nos encontrávamos. Já não éramos putos. Já não éramos heróis. Mas ainda éramos felizes. Mas também éramos gabarolas. Todos já tínhamos beijado uma rapariga. Já todos tínhamos sentido o corpo de uma rapariga, quando muitos de nós nem buço ainda tínhamos.

Hoje, somos completos estranhos. Dizemos olá quando nos vemos. Notamos como somos diferentes. Nenhum é mais o puto que era. Mas todos olhamos com nostalgia para os miúdos na rua a jogar à bola. Ainda recordamos como era correr a calçada de bicicleta. Já não somos putos, mas ainda existe um puto em nós.

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